
Mote
Amor é chama que mata,
Sorriso que desfalece,
Madeixa que se desata
Perfume que se esvaece.
(Popular)
Glosas
Amor é chama que mata,
Dizem todos com razão,
É mal do coração
E com ele se endoidece.
O amor é um sorriso
Sorriso que desfalece.
Madeixa que se desata
Denominam-no também.
O amor não é um bem:
Quem ama sempre padece.
O amor é um perfume
Perfume que se esvaece.
Mário de Sá carneiro, Poesias Completas

Hélios, filho de Hipérion, embarcou na taça
dourada, para atravessar o Oceano
e chegar aos abismos sombrios da noite sagrada,
junto da mãe, da legítima esposa e dos caros filhos.
E entrou por seu pé no bosque sagrado,
de loureiros umbrosos, o filho de Zeus.
Estesícoro, Trad. Maria Helena da Rocha Pereira

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.
Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

Abro a janela e deixo o Outono entrar
O indizível, o tradicional.
E se um desejo tenho especial
É isso: amá-lo até tudo acabar.
Na vida havia bem pouco a ganhar.
Não r’sisto mais. Já nada me faz mal,
Se eu nessa velha dor universal
Dos biliões de extintos meditar.
Ser jovem é inquietude, são dementes
Suspiros por um carinho infindável,
E o isolamento, aí, é falha e dor.
Isso passou, como a vida tem repentes.
A solidão ganhou um lado afável.
Aliás: tudo pudera ser bem pior.
J.C. Bloem, trad. de Fernando Venâncio

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.
Miguel Torga, Diário X

Passa um dia,
e outro a correr atrás dele
e outro e outro...
O tempo a todos impele,
tal o vento
levando, em doida correria,
revoadas de folhas outonais,
folhas de calendários sempre iguais,
uma a uma arrancadas,
perdidas nas estradas...
Nunca mais... Nunca mais...
Saúl Dias, Essência

envio um abraço para todos.
(para a próxima, será colorido :-)

Bruegel, A Tempestade
Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo na vaga
tocando nas richas!
E quantos e quantos naufragando...
Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!
Manuel da Fonseca, Rosa-dos-Ventos

...La pucelle Raison, un évêque et l'official portant des pots d'onguent, destinés à rendre bon et compatissant…
Miniatura de Le pèlerinage de vie humaine
Guillaume de Digulleville, França do Norte, início do séc. XV.
Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura,
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas.
Se acusas os mortais, e os não obrigas,
Se, conhecendo o mal, não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura;
Impura Razão, não me persigas.
É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.
Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
Bocage, Opera Omnia
Relembrei o nascimento de Bocage, em 15 de Setembro de 1765,
graças a
Amélia Pais
e
Almocreve das Petas

Navio Escola Sagres
Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam,
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam;
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E, já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.
Assi fomos abrindo aqueles mares,
Que geração algüma não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à direita
Não há certeza doutra, mas suspeita.
Luís de Camões, Os Lusíadas V, 3 e 4
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

daqui:
http://www.latinoamerica-online.it/cultura/Neruda.jpg
Quiero no saber ni soñar,
quién pueda enseñarme a no ser,
a vivir sin seguir viviendo?
Cómo continúa el agua?
Cuál es el cielo de las piedras?
Pablo Neruda, Memorial de Isla Negra
"En conclusion, debo decir a los hombres de buena voluntad, a los trabajadores, a los poetas, que el entero porvenir fue expresado en esa frase de Rimbaud: solo con una ardiente paciencia conquistaremos la esplendida ciudad que dara luz, justicia y dignidad a todos los hombres.
Asi la poesia no habra cantado en vano."
Do discurso proferido por Pablo Neruda, em 1971, por ocasião da entrega do Prémio Nobel de Literatura

Mes sommets étaient à ma taille
J'ai roulé dans tous mes ravins
Et je suis bien certain que ma vie est banale
Mes amours ont poussé dans un jardin commun
Mes vérités et mes erreurs
J'ai pu les peser comme on pèse
Le blé qui double le soleil
Ou bien celui qui manque aux granges
J'ai donné à ma soif l'ombre d'un gouffre lourd
J'ai donné à ma joie de comprendre la forme
D'une jarre parfaite.
Paul Eluard, Derniers poèmes d'amour

foto daqui:
http://www.themodernword.com/scriptorium/pound.jpg
Sim Sou um Poeta
e sobre meu túmulo
Donzelas hão-de espalhar pétalas de rosa
Antes que a noite degole o dia com sua espada azul
Vê não me cabe a mim, nem a ti objectar
Pois o Costume é antigo aqui em Nínive
E mais de um já vi passar e ir habitar
O horto profundo onde ninguém perturba seu sono ou canto
E mais de um agora sobrepassa com seu láureo de flores
minha beleza combalida pelas ondas
Mas eu sou um poeta
sobre meu túmulo
Todos os homens hão-de lançar pétalas de rosa
Antes que a noite mate o dia com sua espada escura
Não é Raana, que eu seja mais alto
Ou mais belo que os outros
É que sou um poeta e bebo vida
assim como os homens menores bebem vinho
Ezra Pound - (1885-1972)
A Amélia Pais , agradeço este poema.

Fran Yeoh, hades
Quais folhas criadas pela estação florida da primavera,
quando de súbito crescem sob os raios de sol,
assim somos nós: por um tempo de nada, nos deleita
a flor da juventude, sem colhermos o mal ou o bem que vêm
dos deuses. Ao lado estão as Keres tenebrosas,
uma, detentora da velhice medonha,
a outra, da morte. Pouco dura o fruto da juventude
- o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra.
E depois, logo que chega o fim da estação,
melhor é morrer logo do que viver,
pois são muitos os males que surgem no nosso coração: ora é a casa
que cai em ruína, e os efeitos dolorosos da pobreza;
outro não tem filhos, e, sentindo a sua falta,
desce ao Hades, debaixo da terra;
outro tem doença que lhe destrói a vida. Não há homem
a quem Zeus não dê muitos infortúnios.
Mimnervo, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira
Grata a todos que, com perseverança, tentaram ultrapassar
a letargia do Sapo.

«I love my dreams», I said, a winter morn,
To the practical man, and he, in scorn,
Replied: «I am no slave of the Ideal,
But, as all men of sense, I love the Real.»
Poor fool, mistaking all that is and seems!
I love the Real when I love my dreams.
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